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Performer

Amanda iniciou sua pesquisa em intervenção e performance ainda durante a graduação, aos 19 anos. Esse primeiro contato abriu caminho para uma prática que, entre os 24 e 25 anos, passou a se consolidar com maior autoria, recorrência e consciência de linguagem.

Em 2018, realizou, junto a mais cinco artistas, uma intervenção no campus da EFLCH – UNIFESP intitulada Provador de crush — inicialmente de forma anônima, autoria que aqui se torna pública. O coletivo questionava a arquitetura fria e recém-reformada do campus em contraste com os discentes que trocavam Spotted online e com o burburinho em torno de encontros íntimos nos banheiros. O trabalho tensionava os possíveis lugares de afeto que uma universidade pública pode abrigar. A falta de afeto constitui uma universidade? Como pensar espaços de convivência? Que tipo de encontro é permitido? O que precisa ser escondido? Como esses espaços são regulados, negados ou desviados? Essas questões atravessavam o campus naquele momento. O título também dialogava com a incorporação da palavra “crush” no vocabulário cotidiano brasileiro naquele período.

Como gesto provocativo, foram costuradas à mão cortinas pretas e instaladas nos vãos das escadas do prédio principal, em todos os andares, simulando provadores. No interior, havia almofadas, também feitas à mão por uma das artistas, preservativos espalhados pelo chão e post-its com canetas para que as pessoas interviessem escrevendo seus afetos e o que mais quisessem. A intervenção permaneceu por cerca de uma semana, até que os bombeiros da universidade solicitaram sua retirada sob argumento de segurança relacionado ao uso daqueles vãos. Nenhuma degradação ao espaço foi realizada.

A intervenção se insere em um momento de formação em História da Arte, em que o grupo já se encontrava em contato com debates da arte contemporânea e suas linguagens. Nesse sentido, a ação operava como um espaço de experimentação direta entre pensamento e prática, em que estudantes que também produziam arte testavam, no próprio ambiente universitário, possibilidades de intervenção no espaço público.

Ainda que nenhum dos integrantes tenha utilizado o espaço instalado como usuário da obra, a própria criação gerou um lugar de convivência e afeto entre os artistas. Ao se reconhecerem como coletivo em ação, produziam entre si aquilo que propunham tensionar no espaço. A concepção partiu de Amanda em conjunto com outro artista, com formação em direção teatral pela SP Escola de Teatro. Os demais integrantes foram convidados a partir desse núcleo inicial, em sua maioria com algum grau de envolvimento com teatro, moda e práticas visuais. A experiência se destacou, dentro de sua trajetória, como um exercício específico de criação coletiva voltada à intervenção no espaço público, em que a autoria se constrói na articulação entre diferentes olhares, decisões e gestos.

A intervenção dividiu opiniões no campus. Houve quem se identificasse com a proposta e quem a rejeitasse completamente. Ainda assim, gerou circulação, comentários e presença, tornando-se um primeiro contato com a dimensão pública da performance e com a capacidade de uma ação artística provocar reações diversas. Esse movimento também funcionou como um campo de testes no início de sua experimentação artística como performer.

Do ponto de vista conceitual, tratava-se de uma proposição que não buscava se afirmar como culta ou legitimada por temas tradicionalmente elevados. Partia de um elemento considerado banal, o afeto cotidiano, o desejo exposto, o comentário informal, para produzir deslocamento. Essa escolha revelou-se potente. Ao tensionar aquilo que poderia ser visto como trivial, expunha o afeto como campo político.

Essa primeira experiência também deixou uma marca importante na compreensão da performance como linguagem múltipla. Mesmo quando suas obras posteriores passaram a abordar temas mais densos e diretamente políticos, essa intervenção permanece como repertório de entendimento da performance também como cômico, absurdo, jogo, provocação, humor e ludicidade.

Por fim, a intervenção estabeleceu uma relação com o espaço que se desdobraria em trabalhos posteriores. Ao utilizar a própria arquitetura como suporte, o grupo criou uma instalação que convidava à entrada e à permanência. Esse interesse pela instalação já fazia parte do repertório de Amanda antes mesmo da graduação, a partir de seu interesse por exposições imersivas e pela arte contemporânea. Iniciar sua prática performática nesse cruzamento com a instalação ampliou seu entendimento do espaço como matéria de criação. Em trabalhos posteriores, especialmente diante de temas mais urgentes, esse entendimento se desloca para o uso de faixas, recurso capaz de colocar um espaço inteiro em jogo de forma direta. Se a instalação convida o público à entrada, a faixa faz o próprio espaço público virar entrada, transformando o ambiente em um campo imediato de decisão.

Em 8 de março de 2023, concebeu e realizou uma intervenção cênica no SENAC-Campinas, com participação de duas artistas sob sua direção. O contexto do SENAC — onde o único curso de artes é o teatro — oferecia um público não especializado, tornando-se um espaço importante para testar deslocamentos entre o campo artístico e a recepção cotidiana. Amanda subiu ao mezanino do pátio com uma das performers para pendurar uma faixa preta com a frase “Você já ouviu uma mulher hoje?”, enquanto outra performer permaneceria no andar inferior, criando uma troca entre os dois níveis do espaço e chamando a atenção do público para a ação.

A proposta envolvia um jogo próximo ao teatro invisível, em diálogo com a intervenção e com questões sobre escuta, leitura e atenção às mulheres. Durante a ação, no entanto, a performer que estava no andar inferior deslocou a direção inicialmente proposta e passou a questionar a própria performance, afirmando que ninguém ouve ninguém e que era preciso descer para ouvir. Amanda respondeu em cena, convidando-a a subir para conversar, enquanto o público começava a questionar se assistia a uma briga ou a uma encenação.

Duas mulheres discutindo não era o foco inicial da intervenção, o que causou surpresa à própria autora, mas produziu deslocamento: ao final, o público estava, de fato, ouvindo duas mulheres. A faixa permaneceu pendurada após a ação e passou a circular em fotos publicadas por alunos do SENAC-Campinas nas redes sociais. A intervenção também marcou a consolidação da máscara como recurso central em sua figura de performer, articulando seus estudos em artes cênicas e performance na história da arte. No ano seguinte, ao realizar uma nova intervenção no mesmo espaço, Amanda compreendeu que aquele ambiente, já reconhecido por ela enquanto aluna como um espaço seguro, permitia também nomear publicamente a autoria; por isso, passou a creditar as artistas envolvidas em um totem informativo.

Em 19 de março de 2023, realizou, junto com o artista Gabriel F., a performance Meu corpo não é propriedade sua. Sob um pano preto, foram disponibilizados ao público objetos manipuláveis: uma tesoura, fita adesiva, um buquê de flores, um casaco e tiras de faixa de pano. Amanda vestia lingerie branca e um roupão rendado; o outro performer, camisa aberta e bermuda, assumia a figura de um agressor. Uma corda amarrada à cintura da performer era controlada por ele, que a puxava para mais perto a cada assobio.

A ação evidenciava como cada assobio recebido na rua pode operar como violência e sensação de perda de domínio sobre o próprio corpo. Embora os objetos estivessem disponíveis ao público, ninguém interveio. Essa ausência de ação tornou-se parte central da performance e revelou a insuficiência de respostas paliativas diante da violência: flores não contêm um agressor; cobrir o corpo não interrompe a violação; vendar o agressor não desfaz sua consciência da presença feminina; silenciá-lo com fita não retira dele o controle da corda; cortar a corda poderia interromper um vínculo imediato, mas não impediria novas formas de captura.

Diante dessa omissão, Amanda se desamarrou sozinha, conteve o agressor, deitou-o no chão e escreveu em seu peito, com canetão preto: “Meu corpo não é propriedade sua”. A ação final respondia à permissão social que o patriarcado concede aos homens sobre os corpos das mulheres, violados diariamente nas ruas por olhares, assobios e outras formas de invasão que não são reconhecidas pelo Estado como violências. A performance tornou-se também um marco de aprendizado em sua prática, ao expor as vulnerabilidades da performer e os limites da interação com o público em ações diretas.

Em 11 de agosto de 2023, concebeu e realizou, com mais três artistas, a intervenção Do que a cidade se alimenta?, desenvolvida a partir de discussões e aulas sobre teatros indígenas no curso Técnico em Teatro do SENAC. A partir de reflexões sobre teatro, culturas indígenas, cosmologias e relações entre antropologia, arte e cena, o grupo escolheu realizar uma performance no pátio, questionando formas de consumo, nutrição, poder e troca no espaço urbano.

Frases foram coladas nas máquinas de snacks e refrigerantes, como “Do que seu corpo é nutrido?”, “Fome de quê? Fome de poder!”, “Do que a cidade se alimenta?”, “A sua alma se alimenta de quê?”, “Do que essa máquina se alimenta?” e “Qual é a sua moeda de troca?”. Também foram colocadas frutas na saída de produtos da máquina e dentro do micro-ondas do pátio do SENAC. Depois, os papéis e alimentos foram reunidos em uma caixa, que permaneceu no espaço como cesta comunitária de alimentos orgânicos com a frase “Sobrou? Compartilhe.”

Em 8 de março de 2024, concebeu e realizou a intervenção Você é linda | Não se cale. A idealização foi integralmente sua, contando com a colaboração de Zebe e Duda Crespa no momento da ação. Duas faixas pretas foram penduradas no mezanino do SENAC, no mesmo local do ano anterior: de um lado, “Você é linda”; do outro, “Não se cale”. Se no ano anterior a ação perguntava “Você já ouviu uma mulher hoje?”, convocando a sociedade à escuta das mulheres, agora a intervenção deslocava também a convocação para as próprias mulheres, afirmando a necessidade de não silenciar a voz.

As duas frases operavam em contraste e complemento. “Não se cale” afirmava a tomada de posição, a imposição da voz e a recusa ao silenciamento. “Você é linda”, por sua vez, acolhia o cansaço diante das múltiplas formas pelas quais a sociedade deslegitima as mulheres, especialmente pela cobrança estética e pela baixa autoestima produzida por padrões inalcançáveis. A frase não exigia uma ação externa, mas oferecia uma possibilidade de reconhecimento, cuidado e autoamor. Após a instalação, as três artistas gritaram “Feliz dia das mulheres!”, frase repetida por Zebe e Duda Crespa durante o percurso até o mezanino, ao encontrarem mulheres pelo caminho. Os registros foram realizados por Mato (fotos) e André (vídeo).

Em 13 de novembro de 2024, concebeu e realizou a intervenção Corredor do Assédio, na rampa de acesso entre o metrô e a Rodoviária Tietê. O espaço é marcado pela presença constante de motoristas oferecendo viagens clandestinas, o que configura um ambiente de coerção simbólica. Mulheres relatam sentir-se constrangidas ao atravessá-lo, sendo submetidas a olhares invasivos e comentários. Trata-se, portanto, de um corredor de assédio, onde o patriarcado se exerce livremente ao transformar a passagem das mulheres em experiência de constrangimento, coerção e violação.

Relatos foram coletados previamente, com falas como “sempre tem uma cantadinha ou outra”, “tem que passar rápido para não ouvir o que comentam” e “nos olham de cima a baixo”. A intervenção consistiu na instalação de uma faixa preta com escritos brancos, onde se lia “CORREDOR DO ASSÉDIO” em letras maiúsculas. A faixa foi fixada com fita adesiva em um pequeno muro de concreto entre as rampas, inicialmente para observar a reação do espaço.

Em seguida, uma funcionária terceirizada tentou retirá-la, configurando uma tentativa de censura. Amanda interveio, impediu a retirada e segurou a faixa enquanto discutia a situação, argumentando que aquela tentativa era inconstitucional. Ao acionar o megafone e iniciar a denúncia pública, a funcionária recuou e se retirou.

Na sequência, uma funcionária do metrô se aproximou e tentou dialogar, acionando um superior. O diálogo, que indicava a possibilidade de escuta, foi interrompido pela postura desse superior, que passou a adotar um discurso moralista, imputando a situação como um problema individual, que deveria ser tratado por meio de denúncia pessoal, e não como uma questão de caráter público.

A situação mobilizou ainda representantes da administração da rodoviária — todos homens brancos — evidenciando um impasse institucional e simbólico: a quem recorrer quando não há uma mulher em posição superior para escutar a denúncia como experiência pública de gênero? O espaço se revelou como um campo de disputa entre as gestões do metrô e da rodoviária, sem que houvesse encaminhamento efetivo da questão.

Apesar de Amanda ter deixado seu contato com os departamentos de comunicação do metrô e da rodoviária, nenhuma das instituições a procurou posteriormente. A intervenção não foi noticiada nem recebeu retorno, reforçando a dificuldade de reconhecimento público desse tipo de violência.

Corredor do Assédio

Você é linda | Não se cale

Do que a cidade se alimenta?

Meu corpo não é propriedade sua

Você já ouviu uma mulher hoje?

Provador de Crush