Amanda iniciou sua produção plástica explorando a textura da massa acrílica sobre tela. A partir dessas descobertas materiais, desenvolveu uma técnica autoral atravessada pelo conceito japonês de Ma, que havia conhecido durante a graduação em História da Arte, nas aulas de Arte da Ásia com a Profa. Dra. Michiko Okano. O Ma significa uma espécie de “espaço entre”, algo permeado na cultura japonesa de diferentes maneiras, na estética e no comportamento, sempre deixando uma lacuna que não é um vazio, mas um espaço de possibilidades.
Em 2020, no curso de Filosofia da Arte com o Prof. Dr. Osvaldo Fontes, Amanda desenvolveu um trabalho acadêmico sobre telas brancas como pausas visuais, em diálogo com Diante do tempo, de Didi-Huberman. Essa reflexão se fundiu à pesquisa material com massa acrílica e ao conceito de Ma, consolidando uma técnica autoral em que relevo, intervalo e superfície transformam o branco num jogo de ausência e presença.
Logo após suas descobertas com a massa acrílica, o tecido passou a integrar sua pesquisa material, a partir de um processo de recuperação e ressignificação de um de seus quadros. Esse gesto abriu novas possibilidades de textura, movimento e composição.
Paralelamente, sua formação em teatro e suas intervenções cênicas começaram a eclodir em sua obra visual. Em 2023, realizou uma intervenção no SENAC-Campinas, no dia 8 de março, pintando uma faixa preta com tinta acrílica branca e conduzindo uma ação cênica no Dia Internacional das Mulheres. No ano seguinte, realizou outra intervenção na mesma data, agora com duas faixas pretas e escritos em branco: “Não se cale” e “Você é linda”. A repetição da faixa preta, da tinta branca e da palavra como presença visual criou uma ponte direta entre intervenção, escrita e imagem, fazendo com que a linguagem cênica começasse a atravessar sua produção plástica.
Foi então que Amanda percebeu que, por trás dessas intervenções, havia também a urgência de transformar certos acontecimentos em imagem. Até ali, seus quadros se concentravam no branco. Diante da necessidade de responder plasticamente a determinadas notícias e violências, uma nova cor se impôs: o preto. Ainda sem compreender plenamente a referência, posteriormente reconheceu que essa escolha vinha do repertório visual já construído nas faixas e intervenções. Saiu para comprar tinta preta e, assim, iniciou sua série de quadros de protesto.
Abaixo à repressão: O primeiro quadro a surgir foi o “Abaixo a repressão”, após a notícia de repressão dos estudantes pela polícia militar na ALESP em oposição ao projeto de lei das escolas cívico-militares em 21 de maio de 2024.
Meu corpo laico: Em resposta à discussão da possível PL1904/24. Aqui, foi ficando cada vez mais evidente o exercício de palavras se envolvendo com as plásticas, além das cênicas terem intervido conceitualmente desde a primeira tela, a partir da sua experiência como performer. Aqui, também, fica evidente que se trata de um poema inédito, algo que estará presente também em suas outras telas; sempre usa de prosas poéticas ou poemas originais, normalmente feitos exclusivamente para a plasticidade em questão. Publicou nas redes sociais em junho de 2024 e ganhou uma nova versão a partir de restauração em setembro de 2024.
Drag queens: A terceira foi em resposta à suposta releitura de “Última Ceia” de Da Vinci pela comunidade queer na abertura das Olimpíadas de Paris, em que foram atacadas sobretudo as drags. Até mesmo perfis considerados “desconstruídos” resolveram postar comentários absurdos nas redes sociais. Foi uma oportunidade para pôr em debate esse tipo de repercussão com a história da arte, além de colocar em tela a indignação diante de algumas verdades.
Achismos e machismos: A obra “Achismos e Machismos” vem de um episódio pessoal com a artista, em que recheado de “achismo” um homem começou a sugerir a ela o que ficaria melhor em suas pinturas, sem qualquer necessidade, abertura ou fundamento. Lembrou-se também de diversos episódios em que duvidaram de sua capacidade de tomar decisões por si mesma e das diversas mulheres que são julgadas e criticadas diariamente pelo simples fato de serem mulheres. Dedicou essa obra a todas as vezes em que o patriarcado tenta fazer as mulheres pensarem que elas são de todos, menos delas mesmas.
Algoritmo pornográfico: Amanda iniciou como fotógrafa profissional com apenas 13 anos de idade, e desde os 15 publicava fotografias nas redes sociais. Porém, com a venda da plataforma para a Meta, os algoritmos começaram a demonstrar uma grande queda de distribuição de conteúdo a partir de 2021 principalmente. Nessa época trabalhava como coordenadora de comunicação numa editora, e a tendência do marketing era fazer conteúdo “humanizado”, ou seja, quanto mais pele se mostrava, mais engajava. Porém, aos olhos da artista, isso é reflexo direto da indústria de imagem baseada em pornografia.
Progresso: Essa tela surgiu após discussões com um companheiro dos movimentos de esquerda que se incomodou com um comentário autocrítico ao movimento que a artista fez no perfil do presidente Lula. A tela reflete a necessidade de autocríticas para o progresso, pois a tendência de qualquer movimento ou ideologia, ao se sentir totalmente soberano, é a tirania. A tela foi publicada em suas redes sociais no dia 7 de setembro de 2024, e ganhou uma nova versão restaurada em janeiro de 2025.
Coração: De João Batista pediram a cabeça. Mas das mulheres… “Vá até ela e traga-me seu coração” – palavras da Rainha Má. Pede para um caçador levar-lhe o coração de Branca de Neve. Também temos o príncipe, que lhe rouba o coração. Entre violências e destruições, literais e simbólicas, tantas dolorosas. A busca incessante em roubar, destruir ou usufruir de nossos corações. Para que. Por que. Por que tamanha obsessão. Afinal..
Quanto custa
O coração
De uma mulher?
Fôlego: A partir de desilusões e notícias terríveis de feminicídio na mesma semana, retrata a dificuldade da mulher em amar no patriarcado. São tantos motivos para relações amorosas serem dolorosas para as mulheres no patriarcado. A indústria p0rn0gráfica e o acesso a estímulos constantes para o corpo das mulheres, o grande interesse na carne, ausências de interesse na alma da mulher. O luxo, o movimento do acúmulo de capital e por que não de corpos? Os acúmulos, acúmulos, e acúmulos. Na boca de homens “virtuosos” discursos de liberdade apenas enaltecem o livre exercer dos privilégios ocultos e expostos. O quão desinteressante pode ser um simples existir, se sentir livre em plena faculdade de existência apenas. E esta, às vezes, com ausências. Que costumam ser inegociáveis para os gananciosos, que só vivem de muitas presenças. As ganâncias nos tornam doentes, tristes e insolentes. Insuportáveis. O quão desinteressante pode ser entregar o coração a uma mulher. O quão desinteressante pode ser ter o coração de uma. Enquanto cansadas, resistimos a cantadas, ainda que violadas, todos os dias, às violências não reconhecidas pelo Estado. E temos o coração de tantas formas flagelado. Parece que as escolhas se reduzem ao que mata menos ou mata mais. Ousadia nossa querer saber mais. Por isso, mesmo que antes de um fato, a mulher ainda morre todos os dias pelo patriarcado.
Sem anistia: As emoções estavam à flor da pele na realização desta tela, após assistir o filme Ainda Estou Aqui e diante das notícias que revelaram os envolvidos no golpe de Estado para manter o ex-presidente no poder após a derrota nas eleições de 2022. Foi publicada nas redes sociais ao som de “É preciso dar um jeito, meu amigo”.
Democracia do capital: A ideia surgiu após a eleição de Trump que, apesar de ganhar votos da maioria, trouxe à tona a reflexão para a artista do que significa maioria. Ou melhor, o que significa maioria na democracia capitalista. A tela foi publicada nas redes sociais em janeiro de 2025, após Zuckerberg anunciar sobre as políticas das fake news que seriam alteradas em suas plataformas.
Amanda finalizou este ciclo de telas em 2025 e, desde então, vem estudando de forma autodidata novas possibilidades de experiência estética para o início de um novo período plástico.